A única coisa de que se fala nos dias actuais em Portugal é do aborto. Do referendo. Da clássica tríade “sou a favor, sou contra, já fiz.”
Pelos vistos, a pergunta é “Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Ponto.
Não se discute se vai ser o Serviço Nacional de Saúde a pagar ou não. Não se discute se vai ser em hospitais públicos ou não. Apenas está em causa se as mulheres grávidas, até às 10 semanas de gravidez, passam a poder abortar sem correrem o risco de serem penalizadas. Lá está, legalizar o que já existe. Fazer com que haja condições, para quem quiser abortar, o faça.
Eu não conheço nenhuma mulher que tenha abortado apenas porque sim. Mas lá está, as mulheres que eu conheço não primam por serem estúpidas. Fazem-no porque foi um acidente, porque não é do marido, porque não têm dinheiro, porque lhes perturba a carreira. As mulheres não o fazem apenas porque sim.
Eu, não sendo mulher, pergunto-me “o que tenho eu a ver com o assunto?” Por muito que eu queira ou não, no referendo anterior perguntava-me o mesmo. E depois acompanhei o dia-a-dia de uma gravidez calma e desejada, daqueles nove meses pré-parto, não estive lá no parto porque caí redondo no meio do chão à segunda ou terceira contracção que vi, e depois vi sair da sala uma criaturinha pequena, enrugada, meio bebé meio monstro, ainda com umas nodoazitas de sangue, e que fez hoje dois anos. E agora digo a mim mesmo que eu, sendo homem, sendo pai, sendo marido, não percebo, não entendo, não faço ideia, do que é a relação de uma mulher com um filho. Da mesma maneira que acho que um homem, mesmo sendo marido de uma mulher e pai de um futuro filho que essa mulher transporte, não tem nada a ver com o facto de ela querer ou não abortar. É o corpo dela, a alma dela. Às 10 semanas, haja ou não actividade eléctrica no cérebro, haja ou não batimentos cardíacos, os fetos não sobrevivem sem uma mãe. E, para mim, pessoa, ser humano, ser vivo, é uma criatura que respira sozinho, pensa sozinho, se mexe sozinho, interage com o mundo pedindo comida, água e atenção, sem ter tudo filtrado por uma placenta e entregue por umas artérias umbilicais. Há vida nessas células, I’ll give you that. Mas também em células de E. coli, de S. cerevisae e N. crassa. E ninguém se chateia por lixiviarmos essas bichas todas. Às 10 semanas, aquilo que eu via em ecografias não era um ser humano, apesar de ser minha filha; não era um ser vivo, apesar de ser adorável e de nos pôr a nós, pais, a chorar de felicidade. Aquilo que aparecia nas ecografias era um amontoado de células intercomunicantes e em divisão e diferenciação. That’s all.
Porque não há-de uma pessoa abortar se não tiver dinheiro para proporcionar à criaturinha uma vida decente? Para lhe poder comprar comida, roupa, brinquedos, fraldas, tudo isso? Parir para dar para adopção? Tenham noção, nunca devem ter visto uma mulher a parir de parto natural, sem anestesia porque não havia condições para a dar, sem cesariana porque não havia necessidade nenhuma de a fazer, simplesmente a parir, a fazer força, a respirar. Eu também não vi. Mas contaram-me como foi. E os gritos que ouvi durante toda a noite na sala de espera deixavam adivinhar como era. Ou será que vão querer uma lei que digam que quem quiser abortar é obrigada a fazer uma cesariana e a entregar a criança? Parir para dar? Vão vocês parir vitelos, seus hipócritas!
E porque não poderá uma mulher abortar se profissionalmente se esperar dela algo que não ser mãe? Neste país, onde quem tem um emprego tem (ou devia… mas isso é outra história) de se agarrar a ele e defendê-lo com unhas e dentes, onde o desemprego parece terreno fértil e ao virar de cada esquina, compreendo perfeitamente que uma mulher ponha a sua carreira em primeiro lugar. E depois, faria o quê? Ia trabalhar no dia a seguir ao parto, com a criaturinha a querer mamar, e sempre com uma fralda para mudar, uns cremes para pôr, bolas que caiu aqui um bocado de merda no teclado? Tenham noção. Vós, os do contra, os que vão responder não, não puseram nunca o vosso egoísmo à frente de tudo o resto, dos vossos amigos, das vossas famílias? Nem durante a adolescência? Ai não? Hum… e ainda não foram canonizados?
Eu podia continuar para aqui a discorrer sobre os vários motivos para o aborto, mas acabaria com cinco milhões e tal de motivos.
E acho que as pessoas devem poder fazer o que quiserem com o corpo delas. Com as suas células, a sua alma, as suas emoções.
Falta um limite temporal a partir do qual o feto consiga sobreviver sozinho, sem máquinas, como se fosse um bébé normal. Até esse ponto, acho que é uma questão de cada mulher grávida. Depois desse ponto, acho que é crime.
Acho que a pergunta a referendar devia ser outra, do estilo “Concorda com a penalização do aborto?”. Ou será que acha que devemos revogar a lei e dar liberdade às mulheres para fazerem o que quiserem de si mesmas? Eu diria não, não concordo com a penalização do aborto.
Por tudo isto, e mais umas coisitas (mas o tema dava uma tese de doutoramento…), eu sou a favor, àquela pergunta lá de cima, a do referendo, respondo “sim”. Ou melhor, “SIM”.